Para muitas mulheres, a decisão de ter um filho é acompanhada de entusiasmo e planejamento. No entanto, quando os meses passam e o tão sonhado “positivo” não aparece, o processo de engravidar pode se transformar em uma verdadeira montanha-russa emocional.
A vida da “tentante” costuma ser dividida em duas fases angustiantes a cada mês: a janela de fertilidade, cheia de expectativas e cálculos, e a quinzena de espera até o momento de fazer o teste de gravidez. Quando a menstruação desce, o luto pela gestação que não aconteceu recomeça.
Esse ciclo contínuo de esperança e frustração gera um desgaste psicológico profundo. Se você está vivendo isso hoje, a primeira coisa que precisa ouvir é: o seu sofrimento é válido e você não está exagerando.
O peso da pressão e do isolamento
Um dos maiores desafios de quem está tentando engravidar é lidar com o ambiente externo. Frases como “Você precisa relaxar, quando você esquecer, acontece” ou “E o bebê, vem quando?” são ditas por familiares e amigos com a melhor das intenções, mas costumam soar como um julgamento.
Esses comentários alimentam uma crença muito cruel: a de que a culpa pela demora é sua, por estar “ansiosa demais”. Isso faz com que muitas mulheres se isolem, evitem chás de bebê, restrinjam o uso de redes sociais para não verem anúncios de gravidez alheia e guardem a dor para si mesmas por medo de não serem compreendidas.
Além disso, a relação com o próprio corpo sofre. O corpo, que antes era visto como um lar seguro, passa a ser encarado como um ambiente que está “falhando”.
4 Formas práticas de cuidar da saúde mental durante as tentativas
Na Psicologia Perinatal e na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), trabalhamos para que a espera não consuma toda a sua identidade. Aqui estão algumas estratégias para ajudar você a atravessar esse momento com mais leveza:
1. Separe a sua identidade do processo de engravidar
Quando o foco se volta inteiramente para a concepção, é comum esquecer quem você é além do desejo de ser mãe. Retome atividades que te davam prazer antes desse processo começar. O que você gostava de fazer? Resgatar momentos de lazer, hobbies e conversas que não girem em torno de ovulação e testes é fundamental para a sua saúde mental.
2. Cuide da conexão com seu parceiro(a)
O sexo programado e a pressão pelos resultados podem transformar a intimidade do casal em uma tarefa mecânica e estressante. É essencial cultivar espaços na rotina para namorar e se conectar afetivamente sem o objetivo reprodutivo. Lembrem-se de que vocês são uma equipe passando por isso juntos.
3. Questione os pensamentos de catástrofe
Diante de repetidos testes negativos, a mente tende a criar cenários absolutos: “Eu nunca vou conseguir”, “Tem algo de muito errado comigo”. Quando esses pensamentos surgirem, tente trazê-los para a realidade presente. O fato de não ter acontecido neste mês não determina o seu futuro. Acolha a tristeza do momento sem deixar que ela defina toda a sua jornada.
4. Estabeleça limites saudáveis
Você tem o direito de se proteger. Se ir ao chá de fraldas de uma amiga vai causar um sofrimento insuportável neste mês, está tudo bem declinar o convite com carinho. Se as perguntas da família estão machucando, crie respostas curtas e mude de assunto. Aprender a dizer “não” para preservar sua saúde emocional não é egoísmo, é autopreservação.
Encontrando um espaço seguro para falar sobre a dor
Passar por dificuldades para engravidar, seja de forma natural ou através de tratamentos de reprodução assistida, é uma experiência solitária. Ter um espaço livre de julgamentos, onde você não escute que “precisa apenas relaxar”, faz toda a diferença no fortalecimento emocional para continuar a jornada.
A terapia perinatal oferece um acolhimento especializado para que você possa elaborar suas frustrações, lidar com a ansiedade a cada novo ciclo e aprender ferramentas para não se perder de si mesma enquanto espera pelo seu bebê.